Um mês.
Exatamente um mês. Novamente, aquela dor profunda, que toma conta da alma, e fere
sem dó, retornou ao lar. Sempre ela: a morte. Uma palavra que assusta, e
machuca àqueles que vivem com a ausência de quem se ama. E ela, toda linda, aos
seus 83 anos, cheia de amor e de vergonha, se foi inesperadamente, devastando
um tsunami de tristeza nos corações dos seus 60 amados, dentre filhos, netos,
bisnetos, noras e genros. Mulher humilde, que de tanta humildade, exalava
felicidade e amor. Amor por todos, sem distinção. Uma mulher que jamais
permitiu que algo desconfigurasse a sua expressão de serenidade e de paz
espiritual. Nunca se foi vista com sentimentos destrutivos, nem pensamentos
ruins para com nenhum dos seus próximos. Uma mulher que viveu e ensinou o amor
pela vida, pela natureza, pelas coisas simples da vida. Com pouco se
contentava. Era nítida, em sua face corada e com poucas expressões da idade, a
sua luz interior, que emanava alegria singela. Mãe de 14, vó de 30, bisa de 4.
Uma linda e querida. Amada por todos que a conheciam, confirmando o ditado: "É
dando que se recebe". E ela sempre
dizia: "Minha filha, você vem aqui e eu não tenho nadinha pra te
dar". Mal sabia ela que dava o maior bem do universo: sua presença com seu
amor e carinho. Ela estar lá, na cozinha ou com as galinhas, ou colhendo algo
no quintal, ou mesmo deitada na sala, tentando assistir à novela sem escutar
direito o que se falava, ou rindo enquanto tentava dar broncas nos menores, isso
já bastava para todos. Aqueles olhos verdes, miúdos, apertados aos sorrisos
tímidos, sempre seguidos por uma mão a tampar a "cara véia", como ela
dizia. Esta é a imagem mais repetida na memória dos seus, que aqui sofrem de
saudade, mas agradecem a Deus pela sua partida rápida e indolor, como sempre
sonhara. Não existe lembranças da infância em que ela não esteja. Não existe
lembrança de feriados que não tenham sido passados ao seu lado. Fica apenas a
dor de não ter podido dar-te um último adeus em vida. Foram tentativas
frustradas de visitá-la, de abraçá-la. E quando estava segura de que este
abraço seria dado no dia do Nascimento de Cristo, ela foi pra junto dEle e não
deixou adeus. Vê-la naquele féretro, durinha, descorada, mas serena, foi sofrer
no paraíso. Na certeza de que ela foi em paz, e com seu dever cumprido.
Espírito de Luz evoluído na Terra, que se transformara em guia dos que aqui
ficaram. E que te esperam. E sempre existirá
a "Casa de Vó", como era conhecido o seu lar e assim referido por
todos os seus 30 netos, e 4 bisnetos. E pra lá sempre retornaremos, em união para celebrar o
amor sem fim.
Deixo,
aqui, meu registro outrora publicado, quando do momento mais doloroso da sua partida:
"Da
noite pro dia, você amanhece sem chão, e o destino muda de rumo. Pega o
primeiro vôo e, com a roupa do corpo, e em horas de estrada, chega aonde
deveria estar. No único lugar do mundo em que se poderia e queria estar. Vem
pra confortar e ser confortada, porque não há dor maior do que sentir a dor
sozinha, que se multiplica à medida que não pode ser dividida. Minha Vozinha
linda, mãe da maior e mais linda e unida família que conheço e tenho a honra e
orgulho de fazer parte. Que a Luz Divina a guie às portas do paraíso, onde
estarão os anjos, meu Vô Nelson, Tio Aelson e Tio Paulinho a te esperar. Mulher
mais guerreira eu nunca vi. Força para parir, sustentar, criar e consolar todos
os seus 14 filhos, 30 netos e 4 bisnetos, diante de todas as dificuldades de
uma vida dura, mas que foi vivida com muita alegria. Pilar da Família, símbolo
de união e força, mulher do Sr. Nelson, homem de garra e exemplo de ser humano.
Se todas as famílias fossem como a nossa, o mundo seria muito mais amor. Nunca
vi um desentendimento sequer. Somos frutos de muito amor e união. Mulher
simples, humildade da terra, da roça, e sábia por natureza. Perdeu marido e
filhos, e sempre segurou firme. Não há lembranças em que não esteja sorrindo.
Não há memórias da infância em que não esteja presente. E sou grata a Deus por
ter me dado sabedoria para trocar as farras de adolescente para estar em sua
casa, seu pasto, seu quintal, todas as vezes que tive tempo nas férias,
feriados, e finais de semana. Vozinha, minha véia! É muito amor que tenho por
ti. Transbordo de saudade por não ter podido dar-lhe um último abraço caloroso,
e fazê-la rir de cócegas e correr atrás de mim para revidar. Trocaria tudo por
mais um abraço teu. Mas aqui estou, pra ti, por ti e por todos. Maior que a
minha dor, é o meu amor e a minha gratidão por ter multiplicado seus valores em
cada um dos seus descendentes. Vá em Paz, minha Estrela de Luz. Ilumina nossas
vidas, como fez em vida. Amor que não cabe em mim. Seremos todos sempre unidos
em teu nome! SaudadeSempre!"
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