"Não há ninguém, mesmo sem cultura, que não se torne poeta quando o amor toma conta dele." Já filosofava o sábio Platão.
Sendo assim, poderia ela, então, escrever-te "veinte poemas de amor y una canción desesperada" (Obras de Neruda). Ou talvez, apenas pensasse, não exprimisse, não expressasse. Às vezes dói apenas pensar, mas de tanto doer, faltam-lhe forças para externalizar. O mais difícil pode não ser o desabafo dos sentimentos, mas a angústia que ela carrega por temer que suas falhas tenham-a levado à interrupção de uma grande história.
Mas o que seria da vida se não fossem os erros? Analisando seus próprios erros e os alheios, constatou que os seres racionais, que vivem, por vezes, momentos de conflitos internos, situações contraditórias, entre o querer agir e o agir de fato, impulsionados por instintos momentâneos, decorridos de fases diversas, por qual todos os humanos (do latim: Homo Sapiens) um dia passam, estão propensos a falhar. E como a própria taxonomia desta espécie expressa: sapiens de sábio. Logo, o homem só pode alcançar a sabedoria aprendendo com suas próprias falhas (e com as alheias), com a arte de viver, de errar, de sofrer, de amar e entender o real sentido da vida.
Acredita ela que alguns erros são fatais, de fato! Mas o dela, embora tão profundo quanto a dor que carrega por tê-lo feito, não julga o seu caráter, sua personalidade. Afinal, suas atitudes outrora temperamentais decorreram de sua grande frustração perante suas expectativas pessoais em seu momento ímpar de transição. E todos por ele passam um dia. E um dia, talvez, ele também entenda o que é passar pelo que ela passou. Mas ela o deseja muito mais sabedoria para enfrentar essas mudanças.
Há tempos carrega consigo um pensamento: conceituar o outro apenas por um momento, não o torna o que se pensa que ele é. Conceituar o próximo exige bem mais que simples impressões de curtos momentos vividos. Exige uma convivência contínua, na qual se descobre, aos poucos, tudo de bom e de ruim que o outro pode lhe oferecer. Deveríamos, então, deixar de julgar as pessoas e passarmos a "conjugá-las". Neste caso, isolando o sentido conotativo de "unir", passando a utilizar o sentido denotativo de analisá-las em todas as suas flexões, conhecendo seu Modo Indicativo, Modo Subjuntivo, Imperativo, até o seu Gerúndio, e principalmente a sua Forma Nominal. Ademais, muitos destes modos trazem consigo um pretérito perfeito, imperfeito e até mais-que-perfeito, acompanhados de um presente e de futuros do presente e do pretérito, apresentando certezas, incertezas, possibilidades, desejos e condições. Após vencidas estas etapas, pode-se, assim, atrever-se a conceituar alguém.
Entretanto, grande parte dos relacionamentos da modernidade caminha em direção oposta. Muitos não se dão a oportunidade de passar por estas fases e, nos primeiros erros, acreditam ser mais fácil pular para outro, e outro, e outro relacionamento, até encontrar a pessoa certa (ou a que se julga ser a certa). Pois! Como saber quem é a pessoa certa se, a cada primeira falha, elimina-se a possibilidade de vivenciar as diferentes etapas juntos? Apenas ao final delas pode-se saber se aquela é a pessoa certa...ou não.
Amor é um Começo pelo Fim
(Artur da Távola)
O amor corre mais rápido do que os acontecimentos
que estão no seu caminho. Na vigência do amor,
as pessoas vão até o fim das outras muito rapidamente,
passando por cima, ambas, de aspectos, maneiras de
ser e comportamentos do ser amado.
O amor é uma corrida apressada até o fim e o mais alto do
outro. Só depois de, se lá chegar, e viver, e ser, e gozar, e
sentir, começam os percursos e percalços da volta, retorno às
partes que se tornaram retardatárias mas existem e se movimentam.
É como o curso de um rio que desemboca no próximo e reflui.
Na vigência explosiva ou hipnótica do amor, chega-se logo, e
com deslumbramento, ao fim do curso. Aí, há o refluxo. A água
volta à origem e no retorno vai passando por partes que ficaram
submersas, invadidas ou esquecidas quando as águas
passaram aceleradas e torrenciais.
O amor é um começo pelo fim, no qual o meio vem sempre
depois com as suas insuperáveis leis. Por isso, corre mais
rápido do que as veredas que estão no seu caminho. A vivência
de amor é difícil e dolorosa porque significa voltar, depois de ter
chegado ao fim, ao auge, ao máximo.
O amor verdadeiro e duradouro é o preço desse retorno sobre si
mesmo e a complementação de tudo o que estava no caminho e
foi superado pela velocidade e intensidade das águas-paixão.
Essa volta vai revelando, dia a dia, momento a momento, as
margens de cada um que ficaram esquecidas ou deixadas para
depois na passagem turbilhonária e deslumbrante da paixão.
Nessas margens estão os mais lindos recantos de cada ser e se
escondem aspectos menores e restritivos, os defeitos e imperfeições.
Difícil, portanto, não é a chegada ao fim: é viver os vários
refluxos, pois neles estão escondidas as depressões suficientes
(ou não) para terminar o amor. Ao mesmo tempo, o amor cresce,
na medida em que o refluxo permite descobrir, com mais calma,
as partes lindas de cada um, os remansos, as terras fecundas
do afeto, as voltas sinuosas, os jardins de paz e de cada
existência. As partes férteis de cada ser.
É quando o amor deixa de ser muito bom, para ser mútuo bom.
E o amor só é muito bom quando, depois de ter chegado ao
máximo (no sentido de ápice, extremo), volta-se sobre si mesmo
num refluxo enriquecedor e aumenta depois que passa a ilusão.