quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O Amor e suas Conjugações

"Não há ninguém, mesmo sem cultura, que não se torne poeta quando o amor toma conta dele." Já filosofava o sábio Platão.

Sendo assim, poderia ela, então, escrever-te "veinte poemas de amor y una canción desesperada" (Obras de Neruda). Ou talvez, apenas pensasse, não exprimisse, não expressasse. Às vezes dói apenas pensar, mas de tanto doer, faltam-lhe forças para externalizar. O mais difícil pode não ser o desabafo dos sentimentos, mas a angústia que ela carrega por temer que suas falhas tenham-a levado à interrupção de uma grande história.

Mas o que seria da vida se não fossem os erros? Analisando seus próprios erros e os alheios, constatou que os seres racionais, que vivem, por vezes, momentos de conflitos internos, situações contraditórias, entre o querer agir e o agir de fato, impulsionados por instintos momentâneos, decorridos de fases diversas, por qual todos os humanos (do latim: Homo Sapiens) um dia passam, estão propensos a falhar. E como a própria taxonomia desta espécie expressa: sapiens de sábio. Logo, o homem só pode alcançar a sabedoria aprendendo com suas próprias falhas (e com as alheias), com a arte de viver, de errar, de sofrer, de amar e entender o real sentido da vida.

Acredita ela que alguns erros são fatais, de fato! Mas o dela, embora tão profundo quanto a dor que carrega por tê-lo feito, não julga o seu caráter, sua personalidade. Afinal, suas atitudes outrora temperamentais decorreram de sua grande frustração perante suas expectativas pessoais em seu momento ímpar de transição. E todos por ele passam um dia. E um dia, talvez, ele também entenda o que é passar pelo que ela passou. Mas ela o deseja muito mais sabedoria para enfrentar essas mudanças. 

Há tempos carrega consigo um pensamento: conceituar o outro apenas por um momento, não o torna o que se pensa que ele é. Conceituar o próximo exige bem mais que simples impressões de curtos momentos vividos. Exige uma convivência contínua, na qual se descobre, aos poucos, tudo de bom e de ruim que o outro pode lhe oferecer. Deveríamos, então, deixar de julgar as pessoas e passarmos a "conjugá-las". Neste caso, isolando o sentido conotativo de "unir", passando a utilizar o sentido denotativo de analisá-las em todas as suas flexões, conhecendo seu Modo Indicativo, Modo Subjuntivo, Imperativo, até o seu Gerúndio, e principalmente a sua Forma Nominal. Ademais, muitos destes modos trazem consigo um pretérito perfeito, imperfeito e até mais-que-perfeito, acompanhados de um presente e de futuros do presente e do pretérito, apresentando certezas, incertezas, possibilidades, desejos e condições. Após vencidas estas etapas, pode-se, assim, atrever-se a conceituar alguém.   

Entretanto, grande parte dos relacionamentos da modernidade caminha em direção oposta. Muitos não se dão a oportunidade de passar por estas fases e, nos primeiros erros, acreditam ser mais fácil pular para outro, e outro, e outro relacionamento, até encontrar a pessoa certa (ou a que se julga ser a certa). Pois! Como saber quem é a pessoa certa se, a cada primeira falha, elimina-se a possibilidade de vivenciar as diferentes etapas juntos? Apenas ao final delas pode-se saber se aquela é a pessoa certa...ou não. 

Contudo, a esperança de poder ser compreendida e de ser-lhe dada uma chance de ser experimentada em todas as suas flexões conjugativas ainda vive. E ama! 



Amor é um Começo pelo Fim
(Artur da Távola)


O amor corre mais rápido do que os acontecimentos
que estão no seu caminho. Na vigência do amor,
as pessoas vão até o fim das outras muito rapidamente,
passando por cima, ambas, de aspectos, maneiras de
ser e comportamentos do ser amado.

O amor é uma corrida apressada até o fim e o mais alto do
outro. Só depois de, se lá chegar, e viver, e ser, e gozar, e
sentir, começam os percursos e percalços da volta, retorno às
partes que se tornaram retardatárias mas existem e se movimentam.

É como o curso de um rio que desemboca no próximo e reflui.
Na vigência explosiva ou hipnótica do amor, chega-se logo, e 
com deslumbramento, ao fim do curso. Aí, há o refluxo. A água 
volta à origem e no retorno vai passando por partes que ficaram 
submersas, invadidas ou esquecidas quando as águas 
passaram aceleradas e torrenciais.

O amor é um começo pelo fim, no qual o meio vem sempre
depois com as suas insuperáveis leis. Por isso, corre mais
rápido do que as veredas que estão no seu caminho. A vivência
de amor é difícil e dolorosa porque significa voltar, depois de ter
chegado ao fim, ao auge, ao máximo.

O amor verdadeiro e duradouro é o preço desse retorno sobre si
mesmo e a complementação de tudo o que estava no caminho e
foi superado pela velocidade e intensidade das águas-paixão.

Essa volta vai revelando, dia a dia, momento a momento, as
margens de cada um que ficaram esquecidas ou deixadas para
depois na passagem turbilhonária e deslumbrante da paixão.
Nessas margens estão os mais lindos recantos de cada ser e se
escondem aspectos menores e restritivos, os defeitos e imperfeições.

Difícil, portanto, não é a chegada ao fim: é viver os vários
refluxos, pois neles estão escondidas as depressões suficientes
(ou não) para terminar o amor. Ao mesmo tempo, o amor cresce,
na medida em que o refluxo permite descobrir, com mais calma,
as partes lindas de cada um, os remansos, as terras fecundas
do afeto, as voltas sinuosas, os jardins de paz e de cada
existência. As partes férteis de cada ser.

É quando o amor deixa de ser muito bom, para ser mútuo bom.
E o amor só é muito bom quando, depois de ter chegado ao
máximo (no sentido de ápice, extremo), volta-se sobre si mesmo
num refluxo enriquecedor e aumenta depois que passa a ilusão.



quarta-feira, 25 de abril de 2012

A saudade de um Grande Homem

Após um ano de luta, ele partiu! 

Não, este não será mais um post referente à morte, considerando que tudo o que tinha a discorrer aceca dela foi publicado no post do dia 16\02\08 - e os conceitos permanecem os mesmos.

Desta vez, figura-se a luta de um grande guerreiro que, ao longo dos seus quase 44 anos de vida, enfrentou e venceu todas as batalhas, todas as barreiras e muralhas, porque não dizer até poço, surgidos pelas circunstâncias, sempre com muita fé e pensamentos positivos!

Alguém que viveu o que ele viveu, da forma que ele viveu e morreu, somente com muita fé, esperança e vontade de viver para ter contrariado as expectativas dos médicos e ter sobrevivido com a alegria e força que sobreviveu um ano a mais. Um ano de preparação, de ensinamentos, de reflexão. E em todas as reuniões familiares seu nome foi exposto, sua força foi repassada, e sua fé multiplicada, estando presente ou em orações. Não fomos nós que tivemos força para superar, foi ele quem nos deu forças para seguir adiante. Não fomos nós que acreditamos, foi ele quem nos fez acreditar que devemos lutar até o fim! Mesmo com seus poucos quilos, sua face descorada, e aparência tomada por uma doença traiçoeira, ele venceu os primeiros tratamentos, superou os meses de vida previstos por todos e agüentou firme até o último suspiro.

Infelizmente, a última batalha foi vencida por uma metástase precoce e voraz, ou talvez por um diagnóstico tardio. Hoje foi um dia mais que triste. Entretanto, ao mesmo tempo em que sentimos esta profunda dor intangível, confortamo-nos com tuas palavras, e orgulhamo-nos do teu exemplo de perseverança. 

Das lembranças dos sorrisos tímidos, da imagem de um típico agricultor, do "boiadeiro levando a boiada", das cavalgadas e das aulas de montaria, de como tratar os cavalos, do grande pai e marido que foi, do grande jogador de futebol e dos troféus colecionados, do grande amigo, tio, irmão, filho, do multifacetado Paulo Andrade, tão querido por todos.

Na sua simplicidade, na sua garra, em seu exemplo apegamo-nos neste momento para acalentar nossas crianças, tão apegadas ao pai, ao herói, nossa vozinha, que tanto devemos preservar e uns aos outros, nesta corrente de amor e união inerente à Família Andrade, referência de FAMÍLIA por onde passamos! 

Que a tua passagem tenha sido indolor, e que os braços de Deus e dos teus espíritos amigos tenham te aquecido e confortado neste momento de transição. 

A nós, resta-nos a saudade e a dor infindável que perdurará enquanto permanecermos nesta esfera. E os sorrisos que surgirão nos rostos molhados pelas lágrimas ao lembrarmos do Grande Homem que você foi.

SaudadeSempre