quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Amor sem Fim

Um mês. Exatamente um mês. Novamente, aquela dor profunda, que toma conta da alma, e fere sem dó, retornou ao lar. Sempre ela: a morte. Uma palavra que assusta, e machuca àqueles que vivem com a ausência de quem se ama. E ela, toda linda, aos seus 83 anos, cheia de amor e de vergonha, se foi inesperadamente, devastando um tsunami de tristeza nos corações dos seus 60 amados, dentre filhos, netos, bisnetos, noras e genros. Mulher humilde, que de tanta humildade, exalava felicidade e amor. Amor por todos, sem distinção. Uma mulher que jamais permitiu que algo desconfigurasse a sua expressão de serenidade e de paz espiritual. Nunca se foi vista com sentimentos destrutivos, nem pensamentos ruins para com nenhum dos seus próximos. Uma mulher que viveu e ensinou o amor pela vida, pela natureza, pelas coisas simples da vida. Com pouco se contentava. Era nítida, em sua face corada e com poucas expressões da idade, a sua luz interior, que emanava alegria singela. Mãe de 14, vó de 30, bisa de 4. Uma linda e querida. Amada por todos que a conheciam, confirmando o ditado: "É dando que se recebe".  E ela sempre dizia: "Minha filha, você vem aqui e eu não tenho nadinha pra te dar". Mal sabia ela que dava o maior bem do universo: sua presença com seu amor e carinho. Ela estar lá, na cozinha ou com as galinhas, ou colhendo algo no quintal, ou mesmo deitada na sala, tentando assistir à novela sem escutar direito o que se falava, ou rindo enquanto tentava dar broncas nos menores, isso já bastava para todos. Aqueles olhos verdes, miúdos, apertados aos sorrisos tímidos, sempre seguidos por uma mão a tampar a "cara véia", como ela dizia. Esta é a imagem mais repetida na memória dos seus, que aqui sofrem de saudade, mas agradecem a Deus pela sua partida rápida e indolor, como sempre sonhara. Não existe lembranças da infância em que ela não esteja. Não existe lembrança de feriados que não tenham sido passados ao seu lado. Fica apenas a dor de não ter podido dar-te um último adeus em vida. Foram tentativas frustradas de visitá-la, de abraçá-la. E quando estava segura de que este abraço seria dado no dia do Nascimento de Cristo, ela foi pra junto dEle e não deixou adeus. Vê-la naquele féretro, durinha, descorada, mas serena, foi sofrer no paraíso. Na certeza de que ela foi em paz, e com seu dever cumprido. Espírito de Luz evoluído na Terra, que se transformara em guia dos que aqui ficaram. E que te esperam.  E sempre existirá a "Casa de Vó", como era conhecido o seu lar e assim referido por todos os seus 30 netos, e 4 bisnetos. E pra lá sempre retornaremos, em união para celebrar o amor sem fim.

Deixo, aqui, meu registro outrora publicado, quando do momento mais doloroso da sua partida:


"Da noite pro dia, você amanhece sem chão, e o destino muda de rumo. Pega o primeiro vôo e, com a roupa do corpo, e em horas de estrada, chega aonde deveria estar. No único lugar do mundo em que se poderia e queria estar. Vem pra confortar e ser confortada, porque não há dor maior do que sentir a dor sozinha, que se multiplica à medida que não pode ser dividida. Minha Vozinha linda, mãe da maior e mais linda e unida família que conheço e tenho a honra e orgulho de fazer parte. Que a Luz Divina a guie às portas do paraíso, onde estarão os anjos, meu Vô Nelson, Tio Aelson e Tio Paulinho a te esperar. Mulher mais guerreira eu nunca vi. Força para parir, sustentar, criar e consolar todos os seus 14 filhos, 30 netos e 4 bisnetos, diante de todas as dificuldades de uma vida dura, mas que foi vivida com muita alegria. Pilar da Família, símbolo de união e força, mulher do Sr. Nelson, homem de garra e exemplo de ser humano. Se todas as famílias fossem como a nossa, o mundo seria muito mais amor. Nunca vi um desentendimento sequer. Somos frutos de muito amor e união. Mulher simples, humildade da terra, da roça, e sábia por natureza. Perdeu marido e filhos, e sempre segurou firme. Não há lembranças em que não esteja sorrindo. Não há memórias da infância em que não esteja presente. E sou grata a Deus por ter me dado sabedoria para trocar as farras de adolescente para estar em sua casa, seu pasto, seu quintal, todas as vezes que tive tempo nas férias, feriados, e finais de semana. Vozinha, minha véia! É muito amor que tenho por ti. Transbordo de saudade por não ter podido dar-lhe um último abraço caloroso, e fazê-la rir de cócegas e correr atrás de mim para revidar. Trocaria tudo por mais um abraço teu. Mas aqui estou, pra ti, por ti e por todos. Maior que a minha dor, é o meu amor e a minha gratidão por ter multiplicado seus valores em cada um dos seus descendentes. Vá em Paz, minha Estrela de Luz. Ilumina nossas vidas, como fez em vida. Amor que não cabe em mim. Seremos todos sempre unidos em teu nome! SaudadeSempre!"